segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O extraordinário

" "O que você vai fazer com a sua vida?" De uma forma ou de outra, parecia que as pessoas estavam sempre fazendo aquela pergunta - os professores, os pais, os amigos às três da manhã - mas a questão nunca tinha sido tão premente, e ela estava longe de obter uma resposta. O futuro se estendia à sua frente, uma sucessão de dias vazios, cada um mais desanimador e incompreensível que o outro. 
Como iria preencher todos eles?"

Eu não sou excepcionalmente inteligente. Nem tenho nada de extraordinário para oferecer, aparentemente. Às vezes posso ficar quieta, confusa, ansiosa, desastrada demais e para mim isso nem sempre é o bastante. Eu posso até não ser tudo o que eu quero ser, mas eu tenho capacidade o suficiente para me  tornar o que eu quiser e por mais que não possua nada de excepcional, não sou de todo normal.
Tenho medo de desperdiçar a vida e me desperdiçar. De chegar lá na frente e perceber que não escapei daquele destino manjado, de não ter atingido um ponto mais alto, mais interessante e emocionante do que a maioria consegue atingir.
Medo de não poder ser o meu melhor.

"Em certo momento da sua vida, você vai abrir seus olhos e ver quem você realmente é. Especialmente por tudo que a tornou tão diferente de todos os horrivelmente normais."

Mas o que é ser normal?

Ser de verdade é ter coragem para abandonar os preconceitos e receios que isso possa implicar. É aceitar todos os detalhes sobre si mesmo que possam não ser tão incríveis e conseguir achar graça. Senão somos só uma ocupação de espaço, um gasto inútil de energia, um desgaste a mais para a natureza.
Acho que a questão não é ser o tempo todo, mas estar. Porque quando se é, não tem volta, mas quando se está, tudo pode mudar. Permanecer em um estado contínuo de mutação.

Talvez o sentido de tudo me seja dado por alguém ou alguma coisa um dia.
Por enquanto, fico nessa procura frustrada por dramas e perguntas sem respostas.

"People can change.
They just don't because it's easier not to.

We're always waiting for our lifes to begin, like figuring we'll  be someone else someday.

But what are you waiting for?

All we have is now.
Don't run from this."

O fim inexistente do verbo

Passei tanto tempo querendo, que agora nem sei se quero mais.
Não ter o que ser quer e aprender a lidar com isso...
A vida não te mima, você é que mima a vida.
Tem sempre aquela hora que paramos para decidir o que realmente é necessário naquele exato momento, somente para si mesmo. Simplesmente encontrar o que se quer. Uma busca não tão óbvia assim.
E quando finalmente sei o que quero, percebo que quero muita coisa.
A culpa não é minha. É dessa vida imensa. Dessa insatisfação constante.
Faz parte de continuar sendo. Como se é sem nada querer? Precisamos pelo menos continuar não querendo nada, supondo que já tivéssemos tudo o que posteriormente queríamos.
Muita repetição de verbo em um período composto muito longo. Não há como fugir do verbo querer.

Inundarei meus dias com as realizações de meus desejos momentâneos e de longo prazo.
É preciso determinação. Uma palavra que não entra muito no meu vocabulário mental/corporal. Sou meio guiada por atitudes que saem naturalmente, sem muito esforço, na maior parte das vezes.
Assim é muito fácil.
Alguém que não lembro, disse que quanto maior o esforço, mais doce a conquista. É, faz sentido.
Acho válido tentar pelo menos. Riscar mais uma vez o fósforo do acaso e ver o que acontece. Sim, porque afinal nunca se sabe no final, se receberemos mesmo aquilo pelo qual lutamos.
O que custa é apenas tempo e determinação. Substantivo e adjetivo mais valiosos que qualquer capital, mas que também existem apenas para serem trocados. No caso, por desejos realizados.
Plano: dar os primeiros passos para a construção dos acasos dos dias.

Por que eu amo as estrelas

To vendendo sukita?

Até certa idade não me dei conta exatamente do quanto havia crescido, de quanto tempo se passara, de como eu estava diferente. Lembro quando a ficha caiu.
Se não me engano foi ano retrasado, estava na praia com a família e decidi tirar a areia do corpo naquelas duchas públicas de quiosque. Terminei, desliguei. Virei para trás para voltar à mesa com meus pais e ouvi um garotinho me chamar: "O tia! Abre pra mim?". Tia. Ele me chamara de tia. Ninguém nunca havia me chamado de tia antes. Foi um impacto grande, deu quase para ouvir a ficha caindo no chão. Como assim eu já era tia? Olhei para o tamanho dele, para o meu tamanho. "Claro!" - abri a ducha novamente para o moleque.

domingo, 23 de outubro de 2011

História da minha vida

Avôs

Ouvir histórias do avô. Algo que quase nunca me contaram.
Pouco me falam de meus avôs, como já disse. Me faz muita falta.
Imagino que fez mais para a minha mãe, que perdeu o pai aos 7 anos de idade. Leucemia.
Sei que meu avô materno era bonito, querido por todos e trabalhava com marcenaria. O vô Antônio. Não o conheci, como é óbvio, por tanto dele só tenho imagens, fotos. Pouquíssimas.
Meu avô paterno era músico Vô Paulo. Tocava, entre outros instrumentos, piston (seu principal), sanfona, violão, gaita... Foi o segundo marido da minha avó, com quem teve dois filhos, meu pai e uma menina, que faleceu fatalmente.
Por trabalhar também com marcenaria (assim como o materno), teve alguns acidentes de trabalho e acabou perdendo alguns dedos. Também perdeu metade da perna por conta da diabete. A imagem que eu tenho dele é essa, do seu corpo na cadeira de rodas e de como era doce comigo. Seu rosto não me recordo e não temos nenhuma foto, infelizmente.
O que mais me marcou dele foi sua oficina, onde ficavam os trabalhos feitos por conta própria. Eram caixas relativamente grandes de vidro e bordas de madeira que possuíam mecanismos elétricos, luzes e bonecos também de madeira que se mexiam, andavam, trenzinhos que corriam por trilhos e entravam por dentro de pontes e mais coisas que não consigo estar cem por cento certa do que seriam, por ser ainda muito pequena para lembrar. Aquela sala tinha um cheiro muito característico, indescritível, de madeira, cola e mais alguma tinta adocicada. Não sei ao certo.
Fui ao enterro dele. Falecera em 2002, tinha por volta dos nove anos. Mas pela lembrança que tenho parece que foi a muito mais tempo.
Me recordo de toda aquela família que não conheci, por parte dele. É muio estranho pensar em todos eles, todos os tios, tias, primos, primas que não faço a mínima ideia de quem sejam, de como chamam, onde vivem, o que fazem. Se divorciaram, minha avó e ele, e então se casou com outra mulher, que era um amor de pessoa.
Talvez seja graças a ele que tenha esse gosto tão profundo por música. Um prazer inexplicável.

Mas ainda dou graças por ter duas avós maravilhosas. Um dos melhores tipos de pessoas da vida.


(P.S.:Essa é a única parte realmente triste da minha vida. Não se sinta mal por minha causa, por conta da história ou por qualquer outro motivo. Fatalidades acontecem, ninguém pode fugir disso)

Holografia

Já sentiu como se tudo fosse uma grande mentira? Olhar em volta e se perguntar seriamente o que você está fazendo aqui.
Dias em que você acorda, abre o olho e se assusta, porque seus sonhos pareciam ser muito mais reais do que essa realidade. Você tenta voltar a dormir, voltar para aquela história que parecia tão duradoura, mas que na verdade durou só alguns minutos, e não consegue, como se esse mundo te forçasse a permanecer "acordada" até a noite seguinte.
Eu imagino um filme da minha vida. Não que eu compare a minha vida com um filme, mas fico imaginando como seria se fosse um. Como ele terminaria. Tento imaginar um começo, mas não lembro muito bem quando começou e tudo o que eu vivi parece que nunca existiu. Tudo parece ter sido um sonho, um esboço de vida. Assim como quando sonhamos não lembramos como tudo aquilo começou, como fomos parar ali, na vida também não. Alguém lembra como tudo começou?
Uma noite dessas quase não consegui dormir. Tive um estalo de realidade, como se naquele exato momento alguma falha no sistema tivesse acontecido e eu acordasse de verdade e percebesse que existir não faz sentido algum.
Talvez seja falta de fé e consequentemente a necessidade de acreditar em Deus ou em qualquer força maior. Se você não tem uma base, um motivo para estar aqui, então nada faz sentido.

Permaneço sempre neutra diante das crenças em geral. Não acredito nem desacredito, sou da seguinte opinião que tudo pode ou não ser possível, já que qualquer coisa está sujeita ao questionamento. Não sou cética. Tampouco faz sentido pensar que nada exite. Deve haver sim alguma explicação totalmente fora do nosso alcance que dê todo o sentido que tanto procuramos, mas exatamente o quê, só se pode supor.
Para mim é complicado acreditar em algo sem nunca se ter absoluta certeza da veracidade daquilo.

Nada é surreal se levarmos em conta que ninguém aqui é detentor de nenhuma verdade absoluta. Nada pode ser comprovado, a não ser que de alguma forma existimos, apesar de não sabermos como exatamente, nem por que.
Clarice Lispector

"You desappear so completely in your head sometimes," he said.
"I wish I could follow you".
"Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza." Caio Fernando de Abreu.

Numerologia

ANIMA - O QUE MOVE VOCÊ?

7 - Sempre em busca do conhecimento, da sabedoria e da perfeição. Intuitivo, inspirador e retraído. Deseja usar a mente e ter atividades intelectuais, científicas, algo como um filósofo ou místico, mas não consegue isolar-se sem sentir solidão, que o leva a melancolia e depressão. Tem um forte senso de justiça e sabe dar valor às coisas. Evita lugares barulhentos, não gosta de trabalhos servis e de confusão.

Maresia

Amo acontecimentos inesperados, qualquer tipo. É como ficar lá parada no meio do mar quando não vem onda nenhuma, só esperando alguma passar pelo seu corpo e você acompanhar nadando ou então te derrubar, fazendo você virar cambalhota, te dar aquele frio na barriga e ir embora com a correnteza.

Kronos

11 de janeiro. Ainda não consigo me lembrar quando foi que dia 1 terminou. Tenho a sensação de que nenhum dia realmente acabou, como se todos os dias que passaram foram o mesmo dia. Como se na verdade Janeiro fosse um dia só.
Se em sonho o tempo passa mais devagar, por que ele não passaria de outra forma na vida real? Quem disse que só porque anoitece e amanhece, um dia acaba e o outro começa? E se 2011 inteiro se passar num dia só? Longo, exaustivo, intenso.
Tempo não significa nada para mim. Não, na verdade significa que um ponteiro passou de um ponto para outro em um plano circular numerado ou que números mudaram em um aparelho digital.
As coisas acontecendo, mudando e se transformando, para mim é isso o que importa. O que acontece, o que se vive a cada respiração e o que se faz com a própria vida.

A Toa

Talvez esse seja o texto mais difícil que eu tenha escrito.

A Toa foi nossa empregada durante uns 10 anos. O nome dela é Silvana na verdade, mas quando era pequena só conseguia dizer "Toa", sei lá por que, então ficou, Toa. E todos da família a chamavam assim, todo mundo mesmo, meus tios, minhas avós, acho que poucos sabiam o nome dela de verdade. Nem eu soube por um tempo.
Foi a pessoa, não vinculada à família, mais especial da minha infância, apesar de ter tido um vínculo muito grande com todos nós.
Primeiramente minha mãe a contratou como minha babá, depois ela acabou ficando e trabalhando como doméstica. Só que, como já deu para perceber, espero, ela foi muito mais que isso.

Morava em Iguaratá. Ficava na nossa casa a semana inteira, só ia embora final de semana. Devia ter por volta dos 25 anos.

Acontece que ela era minha defensora, minha proteção, meu conforto.
Não direi aqui, sobre o que me confortava, me protegia e defendia. Digamos que era com ela que eu podia contar, sempre.
Queria poder ter mais lembranças, mais coisas a me apegar. Poder tê-la aqui comigo agora, correr para o quarto dela quando não tiver ninguém mais com quem desabafar. Convivemos desde que me conheço por gente. Ela sempre fez parte da minha vida. Até ir embora.

Em 2003, quando tinha 10 anos, meus pais tiveram que estabelecer algumas prioridades. Me lembro muito bem das palavras da minha mãe um pouco antes disso: "Não se preocupa Toa, na lista das prioridades, você e a escola das meninas estão em primeiro lugar." - Bom, o que aconteceu não foi bem condizente com isso.
Ninguém me disse que ela iria embora de verdade. Para mim tudo aquilo não era nada, eu não precisava me preocupar... ela chorando enquanto conversava com a minha mãe, depois me dando tchau, de longe, com a cara inchada, a porta se fechando, eu olhando para a minha lição de casa, tão despreocupada, iludida.
Não dei nenhum abraço, mal olhei para o rosto dela. Me dei conta tarde demais.

No fim deve ter sido bom para ela. Poderia começar algo decente, melhor. Uma família só dela.
Desde então nunca mais a vimos, não temos nenhum contato. Já se passaram 7 anos e meus pais continuam dizendo que um dia desses vamos procurá-la por Iguaratá, mas até hoje nada.

Sinto falta da minha Toa. Única.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Vida de pseudo-rato

Eu já tive um hamster. Aquelas coisinhas minúsculas, peludas e bigodudas que não são mini gatos, mas sim roedores. Era redondo, branco, com manchas pretas (não é esse aí da foto, improvisei). Na verdade eram dois, o meu e o da minha irmã, que ficava em uma gaiola separada. Um era Tico e o outro Teco (palmas para a originalidade).
Tinham direito até àquela bola de plástico oca, que dá para colocá-los dentro e deixá-los "livres" pela casa. Muito bonitinhos.
A maior frustração era quando fugiam (e como fugiam!). Eram experts em roer a grade da gaiola e ir embora em uma viagem misteriosa atrás do nosso grande guarda-roupa marrom.O difícil era tirá-los de lá.
Nossa estratégia era colocar pedacinhos de queijo no vão entre o guarda-roupa e a parede, e esperar até que aparecessem para poderem ser capturados e voltarem para a vidinha medíocre que tinham aprisionados naquelas longas grades brancas. Mas o que dava certo mesmo era tomate e chocolate, eles adoravam.
Tiveram um final trágico. O da minha irmã não lembro como morreu, mas sei que não foi muito bem (se é que existe um jeito bom de morrer), o meu ficou problemático e não parava de andar desesperadamente naquela roda de exercício p/ hamsters. Ficou fora de si, já não comia e acabou morrendo com um aspecto horrível. Tadinho, devia ser dura aquela vida.

(Trechos da tatuí nos tempos da salamandra)

"Primeiro, a carta não tem justificativa. Acho que nem precisa ter. Sabe aquele medo tosco de morrer ou ficar vegetando sem ter falado para todos tudo o que precisava? Então, é mais ou menos isso.
(...)

Você sabe que eu sou péssima em informalizar (deixar menos formal) um negócio (tipo uma carta). Acabo achando tudo uma vergonha quando releio depois de uns... 7 dias. Também sabe que no fundo no fundo, bem lá no fundo mesmo, eu queria ser muda e me comunicar por sinais, porque seria muito mais confortável. (...)

Eu não sou perfeita. Você perdoa meus erros gramaticais, minhas opiniões mal formadas, minha teimosia, a criança dentro de mim que me fez cair de joelhos por alguém dois anos mais novo, a minha mudez voluntária de vez em quando e claro, a minha gloriosa memória seletiva e a rapidez do meu raciocínio. Esqueci de alguma coisa?
Obrigada por isso.
(...)

Acho que o mais esquisito de criar uma relação com alguém é tentar entender como aquela pessoa teoricamente estranha a sua vida pode ter tanto afeto por você. Porque para mim é difícil calcular o impacto que eu causo em alguém(...).

Sabemos que ano que vem é uma incógnita. Ninguém tem nem ideia de onde raios desse planeta vamos estar (nem mesmo amanhã). Apesar disso eu sinto que me perder de você seria uma contradição da física, porque alguma coisa me diz que estamos todos conectados de alguma forma, e talvez as conexões entre as pessoas possam ser explicadas pela ciência algum dia.
(...)"

O que dá o gosto

Os melhores doces que comi foram feitos por pessoas para mim muito importantes.

O primeiro, aquele doce feito pelo meu avô, o do post "Um doce de um quase avô que se foi". 
O segundo, o bolo da minha mãe. Sucesso entre todos meus amigos e família. Pensa em um bolo de chocolate, receita nega maluca, de massa levemente úmida, macia, que se desfaz na boca, com uma cobertura de brigadeiro no ponto, puxa-puxa, e recheio de beijinho. Um bolo simples, feito rapidamente, com tamanha prática, mas que tem um gosto inigualável. Ninguém faz igual. Continua sendo o bolo que eu peço todo ano de aniversário, que eu sempre levo nas reuniões e até para vender na escola, quando arrecadamos dinheiro para a formatura.
O terceiro foi feito pela Stella, minha amiga que havia comentado no post Tuta's Flambadas, o nome que foi batizado o respectivo doce, em minha homenagem (rá!). Segue a receita passada por ela:

"Igredientes:
1 maçã gde, margarina, licor de laranja, açúcar, creme de leite.

*colocar manteiga na frigideira, deixar as maçãs fritarem com a tampa em cima. Colocar o açúcar até virar caramelo. Colocar o licor, flambar (não pega muito fogo, então tem que tirar a gradezinha do fogão e colocar a frigideira bem perto). Deixar evaporar o resto da calda, reservar.

*creme: colocar o creme de leite na mesma frigideira das maçãs (sem as maçãs) , deixar ferver. Colocar o açúcar, depois um pouco de maizena, um pouco de baunilha . Despejar em cima das maçãs.

*calda: derreter o açúcar, colocar em cima de tudo" 

E foi tudo feito a olho, do nada. Um dos melhores (senão o melhor) gostos que já senti na vida. Comi apenas uma vez. Nunca mais esqueci.

Fim.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Princípio da incerteza

Uma indefinição cerca a minha vida por todos os lados. Eu não me vejo sendo definida por nenhuma característica universal. Não sempre, mesmo já tendo tentado várias. Praticamente acabo pendendo entre duas qualidades opostas, ruins ou não, mesmo pendendo sempre mais para um lado.

Isso meio que acontece com todo mundo, eu imagino. Mas não é estranho não ser alguma coisa e ser várias ao mesmo tempo? Não é estranho tentar se encaixar naquilo que você acha que é o que mais lhe cabe e perceber que nem sempre vai se encaixar ali?
Não é confuso tentar explicar e mais confuso ainda tentar imaginar por que tentamos tanto "caber" em algum lugar, como se precisássemos de uma etiqueta para nos colocar na vitrine e deixar oficial que você é uma coisa e não outra. Como se precisássemos ter uma biografia pronta, um código que nos tornasse algo claro e certo.
Eu não sou certa e é a incerteza da minha personalidade que me constroe a cada segundo que um pensamento se forma e dá lugar a outro, que puxa outro, e que vai formando aquela onda de ideias e concepções que mudam a cada correnteza, que vai levando o fluxo do pensar. Só que toda essa construção continua não construindo nada, é um contínuo ser e deixar de ser.

De onde será que a gente tira essa mania de achar que tudo tem que ser prático e regular, quando na verdade a maior parte daquilo que nos rodeia é cheio de metafismos e inexplicações. Aí vai chegar alguém muito esperto e me dizer que a natureza é regida por uma série de leis fundamentais, definidas e regulares, por alguma regra matemática, física ou química. Mas se para existir eu dependo de uma regra matemática e se tudo é regido por alguma dessas regras, então porque eu me sinto tão inexata, tão perdida, tão incerta? Por que a minha vida não acontece como uma progressão geométrica? Por que as coisas não acontecem em uma ordem cronológica cabível para cada momento e mais do que qualquer outra coisa, por que eu mudo de ideia sobre tudo o tempo todo e não consigo encontrar um lugar ideal, onde eu possa respirar aliviada e dizer, caramba é isso o que eu sou e é aqui que eu quero continuar.