Acho engraçado como uma pessoa desconhecida pode deixar uma marca permanente na nossa vida. . Também não temos a mínima noção do impacto que causamos nos outros. Quem nunca ficou se perguntando como seria a vida das pessoas próximas sem sua presença? Ou o modo como alguém que acabou de conhecer vai lembrar de você.Devia ter por volta dos seis ou sete anos, morava em um sobrado, para mim a melhor casa dentre as que eu morei, tanto pelas lembranças como pela casa
Bom, morava nesse sobrado, com piscina, duas salas, um grande quintal que rodeava a casa inteira, onde ficavam os dois cachorros (que mais tarde tivemos que doar por conta da mudança).
A janela do meu quarto dava para os fundos e via-se uma outra casa além do muro, relativamente distante (não lembro o que havia entre o muro e a casa) e nela tinha uma outra janela.
De vez em quando parava um vulto naquela janela e acenava para mim, que acenava de volta. Algumas vezes ficavam os dois parados, um olhando para a janela do outro, como que tentando adivinhar alguma coisa.
De certa forma ele me fazia sentir menos sozinha, apesar dos dois cachorros, minha irmã e a Toa (que na verdade era Silvana, mas não conseguia pronunciar direito seu nome quando era menor, e então todos começaram a chamá-la assim), a moça que trabalhou em casa desde que eu me conhecia por gente e que foi praticamente da família, mas ela é assunto para outro dia. Não que meus pais fossem ausentes, mas chegavam um pouco mais tarde do trabalho e depois do almoço, ficava à toa em casa (não, a Toa não tem nada a ver com a expressão “à toa”).
Pode parecer insignificante, mas apesar da casa não ser de todo vazia e eu não ficar necessariamente sozinha, acabava meio solitária. Um pouco solitária como qualquer outra criança e como qualquer pessoa.
Pode parecer insignificante, mas apesar da casa não ser de todo vazia e eu não ficar necessariamente sozinha, acabava meio solitária. Um pouco solitária como qualquer outra criança e como qualquer pessoa.
Era reconfortante saber que ele estava lá e sabia da minha existência, por mais que eu não tivesse a mínima ideia de quem fosse e acho que exatamente não saber era o que dava toda a graça. Guardava aquela pessoa comigo, independente de ser um homem, mulher, criança. Ninguém mais sabia daquela muda comunicação entre as janelas. Eram encontros espontâneos, sem horário certo. Parávamos sem querer para observar a vista e, de repente, nos dávamos conta da aparição um do outro.
Um dia essa graça acabou.
Do outro lado da rua tinha o mercadinho. O mercadinho é uma boa lembrança da minha infância. Bastava atravessar a rua e podíamos comprar tudo o que uma criança precisaria dali: doces e bexigas. Naquele dia fui ao mercadinho com a minha mãe e senti aquela mão grande na minha cabeça e aquela voz de adulto superior: “Oi meu amor!”.
Não tinha gostado. Nem daquela voz, nem do fato de depois de um tempo ter reconhecido quem era. Ele não devia ser alguém que se encontra por aí em mercadinhos, deveria ser alguém desconhecido para sempre, alguém de quem um dia desses olhamos para trás e tentamos imaginar quem teria sido. Quem seria aquele velho da casa além do muro? Naquele dia fiquei sabendo e não gostei.
Depois disso nunca mais acenei, cortei relações e continuei com a minha existência.
Então pense naquela garotinha morando em um sobrado relativamente grande, levando em conta seu tamanho, e alguém totalmente estranho a sua realidade, que ela só imaginava quem fosse e que ficava ali parado, olhando para ela, dando-lhe importância, como se fosse alguém realmente significante, digna algum dia de uma biografia: “A menina da janela”.