domingo, 11 de setembro de 2011

Entrar na paralela

A realidade, a mais básica, sempre me irritou. "A mais básica" porque para mim não há só uma. Realidade não é apenas aquilo que vivemos cotidianamente, quando acordamos de nossos sonhos e começamos a repetir todos os hábitos rotineiros e ver as mesmas cenas, ouvir as mesmas notícias, escutar as mesmas músicas e conviver com as mesmas pessoas.
Essa realidade básica me faz perder o ânimo, "acaba com a minha graça". É só levar aquele beliscão dela que tudo o que eu tenho em mente, tudo o que me faz ir levando a vida numa boa, sem dar crise existencial, perde todo o sentido. Toda a vida que eu sonho em ter, tudo o que eu quero ser, conhecer e descobrir, todo aquele mundo dentro de mim desmorona, por uma simples frase estúpida, um gesto vergonhoso ou uma voz irritante na tv.
Nunca se imaginou de outro jeito ou vivendo em um mundo completamente diferente? Não digo mundo no sentido de "um país das maravilhas", mas um lugar distinto do seu habitual. Como mudar de São Paulo para um vilarejo perto do Himalaia ou de um gueto no México para a Toscana. Entende? Nunca pensou em mudar ou fugir de tudo? Virar do avesso, como Gandhi, se tornando um Mahatma

O que me belisca de verdade, até me fazer cair no chão é essa mania das pessoas em se prender a uma só realidade e não a largar por nada. Com certeza é bem mais cômodo para viver na mesma sociedade que as acolheu desde o dia em que nasceram. Mas para mim é o pior pesadelo do mundo. Eu simplesmente me recuso a aceitar que exista apenas uma e que eu seja obrigada a viver nela até morrer, do mesmo jeito, com os mesmos defeitos, sendo a mesma de sempre. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Um doce de um quase avô que se foi

Infelizmente sei muito pouco sobre a vida dos meus avôs biológicos e mesmo sobre o terceiro e último marido da minha avó Alice, o vô João. No entanto percebo que todos da família falam dele com uma certa doçura no olhar. Era negro e curiosamente quinze (isso mesmo) anos mais novo (ela era filha de uma italiana com um polonês, devia ser extremamente clara, a julgar pelas fotos do meu pai quando criança, um menininho loiríssimo de olhos azuis), o que mostra a genuína e louvável falta de preconceito da parte dela. 
Morrera quando eu tinha apenas quatro anos, recordo-me vagamente dele. Só não consigo me esquecer de um certo doce que costumava fazer, cuja receita também se foi com ele. Nunca mais comi nada igual. Uma mistura de biscoito de maisena com brigadeiro, um gosto leve de doce de leite com mais algum ingrediente impossível de descrever. Um dos melhores sabores do mundo. Inesquecível.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

A primeira memória de um sashimi em pedaços

Pouquíssimos flashs vêm na memória: minha mãe me mandando ir lavar as mãos para almoçar, eu entrando no banheiro do quintal, depois subindo no vaso sanitário para alcançar a pia e é só. O resto é tragédia.
Tinha quase três anos na época. Devo ter colocado a língua para fora, em uma daquelas atitudes para atingir um grau maior de concentração. Escorreguei, bati o queixo na pia e cortei profundamente a própria língua com os pequenos dentes, novinhos, que haviam acabado de nascer. Quase a engoli literalmente.

Minha primeira lembrança e uma cicatriz para a vida inteira.
No entanto da dor não me recordo, o que já é algo a se dar graças. Minha mãe pingava um cicatrizante para que o ferimento desaparecesse mais rapidamente. Imagino que não se levava ponto na língua.

Um órgão esquisito. Me lembra um super pedaço de sashimi preso à garganta e eu não sou muito chegada em peixe cru.


{com 2 anos, no meu batizado, minha língua ainda estava firme e forte}