Talvez esse seja o texto mais difícil que eu tenha escrito.
A Toa foi nossa empregada durante uns 10 anos. O nome dela é Silvana na verdade, mas quando era pequena só conseguia dizer "Toa", sei lá por que, então ficou, Toa. E todos da família a chamavam assim, todo mundo mesmo, meus tios, minhas avós, acho que poucos sabiam o nome dela de verdade. Nem eu soube por um tempo.
Foi a pessoa, não vinculada à família, mais especial da minha infância, apesar de ter tido um vínculo muito grande com todos nós.
Primeiramente minha mãe a contratou como minha babá, depois ela acabou ficando e trabalhando como doméstica. Só que, como já deu para perceber, espero, ela foi muito mais que isso.
Morava em Iguaratá. Ficava na nossa casa a semana inteira, só ia embora final de semana. Devia ter por volta dos 25 anos.
Acontece que ela era minha defensora, minha proteção, meu conforto.
Não direi aqui, sobre o que me confortava, me protegia e defendia. Digamos que era com ela que eu podia contar, sempre.
Queria poder ter mais lembranças, mais coisas a me apegar. Poder tê-la aqui comigo agora, correr para o quarto dela quando não tiver ninguém mais com quem desabafar. Convivemos desde que me conheço por gente. Ela sempre fez parte da minha vida. Até ir embora.
Em 2003, quando tinha 10 anos, meus pais tiveram que estabelecer algumas prioridades. Me lembro muito bem das palavras da minha mãe um pouco antes disso: "Não se preocupa Toa, na lista das prioridades, você e a escola das meninas estão em primeiro lugar." - Bom, o que aconteceu não foi bem condizente com isso.
Ninguém me disse que ela iria embora de verdade. Para mim tudo aquilo não era nada, eu não precisava me preocupar... ela chorando enquanto conversava com a minha mãe, depois me dando tchau, de longe, com a cara inchada, a porta se fechando, eu olhando para a minha lição de casa, tão despreocupada, iludida.
Não dei nenhum abraço, mal olhei para o rosto dela. Me dei conta tarde demais.
No fim deve ter sido bom para ela. Poderia começar algo decente, melhor. Uma família só dela.
Desde então nunca mais a vimos, não temos nenhum contato. Já se passaram 7 anos e meus pais continuam dizendo que um dia desses vamos procurá-la por Iguaratá, mas até hoje nada.
Sinto falta da minha Toa. Única.
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