quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Me acorda mais cedo amanhã?

Por quantas janelas, de quantos ônibus.

A cidade passa tão morta e devagar que às vezes acho que quem morreu fui eu. 

Quantas pessoas realmente sabem? Quantas olham pela mesma janela e te perguntam se você conseguiu enxergar alguma coisa hoje? 

Às vezes eu consigo ir cantando para o ponto de ônibus e tudo parece estar razoavelmente bem. Às vezes também consigo olhar nos olhos de alguém e ser verdadeiramente confiante. 
Às vezes o ônibus bate na minha cabeça e me acorda, e eu percebo que ainda não saí do lugar apesar de tudo. 

E ele continua andando. 
Muitas vezes depressa demais e não dá tempo.

E eu continuo desperdiçando todo o tempo que eu tenho. Deixo a água quente do banho escorrer devagar e se perder no esgoto. Deixo a sujeira colar escondida na minha unha. Deixo o cobertor me fazer suar. Me deixo para dentro de casa enquanto você passa no seu carro lá fora onde o dia está vivo e te deixa enxergar. 
Mas o ponto que eu tenho que descer ainda não chegou. Na verdade eu nem sei qual é.  

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Bug

Talvez seja tudo o que se precise, desligar-se por algumas horas. Desligar-se de si mesmo, da sua vida, de todas as condições que você criou e estabeleceu como uma espécie de norma e que acaba te cercando e limitando. Tornar-se livre de quem se é. O que te dá a oportunidade de agir de uma forma que normalmente não agiria. Nada mais importa, as pessoas a sua volta e todas suas respectivas atitudes, às vezes repugnantes. A única coisa que realmente importa é que você está ali não sendo você mesmo, aproveitando toda aquela espontaneidade que se escondia o tempo todo. Não é uma questão de fugir, é uma questão de descansar e de voltar no tempo, para aquela época em que nada do que você fez de você hoje existiu.

Meu telefone acabou de cair no chão mas isso nunca aconteceu de verdade

Posso te descrever agora como um meio romance literário, daqueles que acabam e a gente não sabe por que e etc. Mas hoje nada está com cara de literatura.
Hoje fez sol, minhas vizinhas conversaram em voz alta perto da minha janela, acabei não indo para faculdade de novo e minha amiga desmaiou no metrô. Almocei hambúrguer com arroz e legumes.
Você não deu mais notícias e eu nem espero mais que algum dia vai dar. Às vezes lembro de você e sinto um pequeno arrebatamento de pena, de algo que não poderia ter sido e não foi. E eu não sei o por que. Claro...
Algumas vezes você queria tocar os meus dedos e olhar nos meus olhos e isso e outras coisas me fizeram querer me abrir pra você. Perceba que não foi nada além disso, além do afeto que apareceu entre nós no primeiro dia. Não foi além da minha vontade de olhar pra você de volta e também tocar seus dedos e ouvir alguma coisa da sua vida que você ainda não tinha contado para ninguém até então.
Se nada no mundo físico realmente se encosta porque existe esse vazio imenso no meio, a vontade verdadeira da alma é tocar.
Como eu disse, nada disso é literatura sobre um meio romance que não aconteceu. Já anoiteceu, estamos em setembro e acho que qualquer dia desses alguém vai esbarrar sem querer no meu olho e eu vou olhar para a mão dessa pessoa e pensar o quanto tudo é tão maravilhosamente idiota e frágil e sublime.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Do Sublime

Ouço os latidos distantes dos cachorros.

Nada que me faça levantar da cama em um dia garante que vá me fazer levantar no dia seguinte.

Como eu me preocupo em deixar de ser alguém que não é tantas coisas. Como eu queria ser mais.
Queria ser tanto e de um jeito tão pleno que a sua presença, simples, te torna alguém a ser apreciado em todos os aspectos possíveis e não alguém que me tire ao longo do tempo todos os filtros e me faça lembrar involuntariamente da minha miséria. Porque quando a gente é muito e está junto, isso tende a ser algo que acrescenta. Diferente de quando somos pouco. Quanto menos somos, mais subtraímos.

É como se eu não pudesse te amar livremente porque eu preciso de algo além de você. Preciso que me convença do que eu não sou.
Quero pegar o meu amor e colocá-lo num lugar longe de mim, onde ele possa crescer te amando apenas.

E nunca pense que você me magoa por não me amar. Você me magoa porque no fundo eu já sou mágoa. Sou uma lagoa de água sublimada.
Nos nossos silêncios me percebo em meio ao vapor quente do desespero de pensar que isso o que eu sou nunca vai conseguir preencher o espaço tão espontaneamente quanto você achou que preencheria. Me olha de novo e vai perceber que na primeira vez eu parecia o objeto da sombra que sou e sempre fui.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Te espero daqui 50 anos na esquina do nosso bordel

Essas coisas, as que nos cutucam os olhos no escuro do quarto, ou mesmo de dia na luz cega do sol, esperam ansiosamente que paremos de fingir. Fingir que a vida não nos apavora. É uma das melhores frases que li nos últimos tempos.
Acho que a agonia maior de ser jovem é ter tanto potencial. Todo nós nascemos com essa bolinha pequena chamuscante cheia de energia pronta para saltar no primeiro impulso e cair nas garras da sua fortuna, para que mais tarde a gente se pergunte como diabos ela foi parar em lugares tão indesejáveis. E aí, antes do desastre todo, ficamos ansiosos demais porque quanto mais adultos nos tornamos, mais acreditamos que a bolinha não tem energia o suficiente para saltar tão longe ou que a fortuna já não tem muitos caminhos interessantes a oferecer. É o que enxergamos nas pessoas que já cresceram e que já apanharam muito e ainda estão apanhando (porque talvez quando eram jovens, o paradeiro de alguma bolinha velha as traumatizou e fez com que as suas próprias pulassem para o lado errado).
É essa bolinha ridícula que faz com que fiquemos tão perdidos, porque para nós e principalmente para quem já acredita não a possuir mais ela tem um valor infinito que não pode nunca ser desperdiçado, se não temos quase certeza que um dia algum dedo grosso desgastado vai apontar para a nossa cara e dizer: por que você mandou ela pra lá e não pra cá? A culpa é toda sua, agora aguenta.
Queria poder agarrar essa bolinha na mão e falar vai, agora se joga nessa porra dessa vida, que não vai ser fácil, mas se for para te deixar ir no caminho que te disseram para seguir, prefiro que você vá pra puta que te pariu. Aquela maravilhosa puta que talvez seja a sua salvação eterna.  


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O extraordinário

" "O que você vai fazer com a sua vida?" De uma forma ou de outra, parecia que as pessoas estavam sempre fazendo aquela pergunta - os professores, os pais, os amigos às três da manhã - mas a questão nunca tinha sido tão premente, e ela estava longe de obter uma resposta. O futuro se estendia à sua frente, uma sucessão de dias vazios, cada um mais desanimador e incompreensível que o outro. 
Como iria preencher todos eles?"

Eu não sou excepcionalmente inteligente. Nem tenho nada de extraordinário para oferecer, aparentemente. Às vezes posso ficar quieta, confusa, ansiosa, desastrada demais e para mim isso nem sempre é o bastante. Eu posso até não ser tudo o que eu quero ser, mas eu tenho capacidade o suficiente para me  tornar o que eu quiser e por mais que não possua nada de excepcional, não sou de todo normal.
Tenho medo de desperdiçar a vida e me desperdiçar. De chegar lá na frente e perceber que não escapei daquele destino manjado, de não ter atingido um ponto mais alto, mais interessante e emocionante do que a maioria consegue atingir.
Medo de não poder ser o meu melhor.

"Em certo momento da sua vida, você vai abrir seus olhos e ver quem você realmente é. Especialmente por tudo que a tornou tão diferente de todos os horrivelmente normais."

Mas o que é ser normal?

Ser de verdade é ter coragem para abandonar os preconceitos e receios que isso possa implicar. É aceitar todos os detalhes sobre si mesmo que possam não ser tão incríveis e conseguir achar graça. Senão somos só uma ocupação de espaço, um gasto inútil de energia, um desgaste a mais para a natureza.
Acho que a questão não é ser o tempo todo, mas estar. Porque quando se é, não tem volta, mas quando se está, tudo pode mudar. Permanecer em um estado contínuo de mutação.

Talvez o sentido de tudo me seja dado por alguém ou alguma coisa um dia.
Por enquanto, fico nessa procura frustrada por dramas e perguntas sem respostas.

"People can change.
They just don't because it's easier not to.

We're always waiting for our lifes to begin, like figuring we'll  be someone else someday.

But what are you waiting for?

All we have is now.
Don't run from this."

O fim inexistente do verbo

Passei tanto tempo querendo, que agora nem sei se quero mais.
Não ter o que ser quer e aprender a lidar com isso...
A vida não te mima, você é que mima a vida.
Tem sempre aquela hora que paramos para decidir o que realmente é necessário naquele exato momento, somente para si mesmo. Simplesmente encontrar o que se quer. Uma busca não tão óbvia assim.
E quando finalmente sei o que quero, percebo que quero muita coisa.
A culpa não é minha. É dessa vida imensa. Dessa insatisfação constante.
Faz parte de continuar sendo. Como se é sem nada querer? Precisamos pelo menos continuar não querendo nada, supondo que já tivéssemos tudo o que posteriormente queríamos.
Muita repetição de verbo em um período composto muito longo. Não há como fugir do verbo querer.

Inundarei meus dias com as realizações de meus desejos momentâneos e de longo prazo.
É preciso determinação. Uma palavra que não entra muito no meu vocabulário mental/corporal. Sou meio guiada por atitudes que saem naturalmente, sem muito esforço, na maior parte das vezes.
Assim é muito fácil.
Alguém que não lembro, disse que quanto maior o esforço, mais doce a conquista. É, faz sentido.
Acho válido tentar pelo menos. Riscar mais uma vez o fósforo do acaso e ver o que acontece. Sim, porque afinal nunca se sabe no final, se receberemos mesmo aquilo pelo qual lutamos.
O que custa é apenas tempo e determinação. Substantivo e adjetivo mais valiosos que qualquer capital, mas que também existem apenas para serem trocados. No caso, por desejos realizados.
Plano: dar os primeiros passos para a construção dos acasos dos dias.

Por que eu amo as estrelas